root Março 22, 2018

O ex-primeiro-ministro foi a Coimbra dizer aos estudantes que a austeridade na Europa falhou em toda a linha. E que Portugal é hoje “um país propositadamente atrasado”.

Primeiro louvou a coragem e o “desassombramento” do núcleo de estudantes de Economia da Associação Académica de Coimbra, que o convidou como palestrante.

Depois olhou de frente para as centenas de alunos (e alguns professores) que lotaram o auditório da Faculdade de Economia, e desfiou toda a sua teoria sobre “O projeto Europeu depois da Crise Económica”- Esta tarde, em Coimbra, José Sócrates estava com peixe na água: uma plateia interessada para o ouvir, uma organização a criticar as opções da comunicação social – por ter dado mais destaque à presença do ex-primeiro ministro do que à manifestação anti-propinas que decorria no mesmo dia, naquela cidade – e um conjunto de certezas para defender.

O desafio era falar do tempo que se seguiu a 2008, quando rebentou a crise económica. Mas Sócrates viu-se obrigado a recuar até Paris – outra vez. Remeteu a plateia para o ano de 1938, para explicar a teoria da crise, que afinal só existiu em consequência do seu anúncio.

“Nesse ano reuniram-se aqueles que eram considerados os espíritos mais vibrantes do liberalismo europeu (a propósito do lançamento do livro de Walter Lippmann, o primeiro a introduzir o conceito de Guerra Fria), e as opiniões dividiam-se em duas correntes, na diferença sobre a responsabilidade do Estado. Para uns havia Estado a mais (que intervinha e protegia os trabalhadores, e apontavam essa como a causa da crise que se vivia), para outros a falta de intervenção do Estado é que conduzira àquela situação, um ano antes da segunda guerra mundial. Também em 2008 ficámos perante essa discussão. Os que achavam – como é o meu caso – que grande parte da responsabilidade se devia à ausência do Estado, à sua deficiente presença nos mercados financeiros” saíram derrotados pela fação que defendia a responsabilidade do excesso de protecionismo estatal na crise económica. “A diferença de 1938 para 2008 foi uma: a corrente que saiu vencedora foi a que no pós guerra fundou o projeto europeu, com base nos compromissos entre países e nas políticas sociais. Ora, em 2008, foi a outra que saiu vencedora”. Sócrates acredita que essa corrente, dos anos 30, nunca se deu por vencida. A provar-se a sua teoria, estaremos perante uma atitude de revanche.

“Aqueles que perderam fizeram um ajuste de contas em 2008”. E por isso mesmo defende que a receita encontrada para a crise foi “puramente ideológica, sem qualquer base científica, técnica ou económica”. O ex-governante acredita que a “a Europa foi duplamente vítima – da crise e da resposta à crise. E a experiência portuguesa é bem a demonstração de como essa receita falhou em toda a linha”, disse, ele que aponta igual falhanço ao Brexit, ou à guerra ao terrorismo desencadeada a partir dos Estados Unidos, que haveria de desencadear um dos maiores êxodos de deslocados da História, fazendo despertar a ideia “de que todos nós devemos abdicar da nossa liberdade individual para termos mais segurança. Não teremos nem uma coisa nem outra”, disse Sócrates, socialista e europeísta confesso, a assistir a essa “lenta evolução que transforma os Estados democráticos em Estados policiais”. Ou que faz crer a extrema direita por toda a parte.

“Cá chegará, também”, acredita o engenheiro, que apesar de desgostoso com o projeto europeu que vai ruindo, resultado da desconfiança entre os países, continua esperançoso: “sempre fui (como todos os políticos são) um otimista. E o que hoje vos disse aqui serve para vos alertar para os perigos e vos incentivar a contestar esse modelo”, disse aos estudantes, que no final tinham muitas perguntas para lhe fazer. Sobre o que disse, e sobre o que fez.

Um país atrasado, sem TGV

Olhando para o país que em tempos liderou, José Sócrates tem essa satisfação, que o atual Governo lhe deu, de acabar com a austeridade. “Eu costumava dizer que era como estar a afundar-se, num buraco, e ir escavando. Ora, quanto mais escavava mais se afundava. O que este Governo fez foi parar de escavar”. Mas tem sobretudo lamentos: “a última vez que ouvimos falar de modernização e crescimento foi num Governo liderado por mim. Hoje somos um país propositadamente atrasado”, afirmou, socorrendo-se dos projetos que foram engavetados, como o do TGV. E deixou para o final o exemplo prático: “quando eu tinha a vossa idade [dos estudantes] andava muito de comboio. Há 30 anos demorávamos três horas a ir de Lisboa ao Porto. Sabem quanto demoramos hoje? 2 horas e 50 minutos. E a ideia de que o país não tem aqui um trabalho a fazer para se erguer é das ideias mais reacionárias que tenho visto. É a ideia da resignação”. Saudoso desses tempos em que era ele “o animal feroz”, temido pela oposição, Sócrates contornou à sua maneira a questão mais incómoda que um aluno lhe colocou, remetendo-o para a sua governação, quando os estudantes perderam peso na Academia, quando entraram nas decisões outros agentes das comunidade. Já que o dia estava para viagens ao passado, recuou a 2010, “o ano que mais dinheiro transferimos para as universidades”. Ou ainda ao período que começou em 2005, nesses cinco anos em que “fizemos a maior aposta de sempre no ensino superior, com esse grande político que foi Mariano Gago”.

O convite a José Sócrates fora amplamente contestado nas redes sociais, mas a verdade é que os estudantes ocuparam até os corredores de passagem do auditório da Faculdade de Economia para o ouvir. O núcleo organizador aproveitou a sala cheia para manifestar o desejo de ver “o mesmo destaque e mediatismo” à manifestação que haveria de decorrer duas horas depois, no Largo D. Dinis, contra as “propinas camufladas” e outras contestações. “Propinas e Bolonha, é tudo uma vergonha”, gritaram os estudantes de Coimbra, que ainda é uma lição.

Fonte: DN

Comentários

comentários